Não é novidade que a verdadeira inclusão social da pessoa com deficiência caminha a passos mais lentos do que muitos de nós gostaríamos, mas precisamos reconhecer que os obstáculos a serem vencidos são inúmeros. Podemos citar os problemas em relação às concepções histórico-culturais em torno desta população, à visibilidade, ao acesso a bens e serviços e muitos outros fatores.

Quando falamos da inclusão na escola especificamente, algumas barreiras à inclusão são lembradas constantemente: não há acessibilidade arquitetônica na maioria das instituições de ensino, as salas de aula são superlotadas de alunos e os professores, em geral, não se sentem preparados para trabalhar com estes alunos diversos.

Contudo, há um outro fator que impede a inclusão de acontecer, que é muito recorrente, mas é pouco abordado: o sentimento de pena.

A pena e a superioridade

É muito grande o número de profissionais da escola que deixam de realizar as adaptações e intervenções necessárias para o aluno com alguma necessidade educacional especial, não por uma formação insuficiente, mas por sentir pena. Assim o professor deixa de acompanhar, de exigir, de persistir porque fica sensibilizado com a condição do aluno. 

O problema do sentimento de pena é que ele mascara uma relação de superioridade. No primeiro impacto, a dó parece uma generosidade pelo o reconhecimento de uma condição de vida difícil. Porém, o sentimento de dó esconde uma relação de supremacia em relação ao outro. Quem sente dó, às vezes sem perceber, se percebe como melhor, mais capaz. Por consequência, se o outro é inferior, ele é incapaz de crescer, aprender, desenvolver outras habilidades. Sendo assim, este aluno recebe menos investimento da equipe escolar e fatalmente terá um desempenho inferior às suas reais capacidades.

O sentimento de pena e a ciência

A interferência do sentimento de pena pode ser discutida com base em estudos que comprovaram a influência da percepção do professor em relação aos alunos e o desempenho escolar deles. 

O mais conhecido deles descreve o fenômeno da Profecia Autorrealizadora definido pelo sociólogo Merton em 1948, que diz que:

“uma definição (…) falsa da situação, a qual evocará um novo comportamento fazendo com que a definição inicialmente falsa se torne verdadeira”

Ou seja, se o professor pressupõe que o aluno não é capaz de aprender, este aluno inevitavelmente não será capaz de desenvolver plenamente suas habilidades, e confirmará as expectativas iniciais do professor.

Na Profecia Autorealizadora não há qualquer mistério ou superstição: o professor age de acordo com suas crenças e percepções e adota posturas que acabam por influenciar o desempenho dos educandos.

Tal fenômeno tem sido ampliado e/ou renomeado por diferentes autores e em diversos campos de conhecimento, conforme é possível verificar na figura abaixo:

Ou seja, é preciso ter uma visão positiva dos alunos para que tenha melhores resultados.

Eu descobri que sinto pena, o que faço?

Muitos alunos apresentam condições de vida realmente muito complicadas, seja em função da própria deficiência, ou por condições familiares, sociais ou financeiras difíceis. Nós devemos sim reconhecer e nos sensibilizar diante da realidade dura de muitos alunos. Mas é preciso utilizar esta empatia como combustível para ações que auxiliem estes alunos a avançarem. Assim, o que podemos fazer enquanto escola é incentivar a participação destes alunos em todas as atividades, estimular a interação com os colegas, exigir responsabilidade e compromisso com as tarefas escolares e trazer a família como parceira neste processo. Sem esquecer das limitações, é nosso compromisso enquanto educadores acreditar que nossos alunos sempre podem mais.

Fonte: Carvalho, Pablo & Gomide, Natália & Naves, Ana Rita. (2018). A profecia autorrealizadora sob a óptica da Análise do comportamento. Acta Comportamentalia. 26. 521-532. <http://revistas.unam.mx/index.php/acom/article/view/68126/60148 >

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